terça-feira, 18 de dezembro de 2018

ETRIGAN – O Demônio de Jack Kirby – Lendas do Universo DC

ETRIGAN – O Demônio de Jack Kirby – Lendas do Universo DC 1 e 2

Olha… tenho obrigatoriamente que te dizer que Etrigan, o Demônio, é um dos personagens que mais me intrigam desde a infância. Sempre fui fascinado por demonologia. E conheci Etrigan na fase pré-crise e logo em seguida, acompanhei uma saga sensacional dele na revista superamigos, em que Matt Wagner traz um Jason Blood que tenta se separar de Etrigan definitivamente. Logo depois, ele aparece em várias aventuras de outros personagens da DC, inclusive em Crise nas Infinitas Terras e em Monstro do Pântano de Alan Moore. Mas vamos seguir com o que interessa.

Jack Kirby, Criador do Demônio.

Acho que quem acompanha este blog já deve saber quem é o Rei dos Quadrinhos, o grande criador do visual de um numero enorme dos heróis clássicos da Marvel, que vai de Homem de Ferro, Thor, Capitão América e Vingadores até Quarteto Fantástico, X-Men, Galáctus, Dr. Destino, Pantera Negra, Inumanos e mais um monte que não vai caber aqui. Na DC, além de Etrigan Kirby criou Darkseid e os Novos Deuses, Povo da Eternidade e para a TV, além de trabalhar num desenho do Quarteto, criou Thundarrr o Bárbaro. Tipo… só isso que ele fez.

Nestas duas edições recém lançadas pela Panini no Brasil – Lendas do Universo DC 1 e 2 : Etrigan, temos as primeiras 16 revistas “The Demon” de 1972, somando quase 400 páginas demoníacas pra nenhum fã de quadrinhos botar defeito. Bem antes da conhecida fala rimada deste personagem surgir anos depois como algo obrigatório e com uma abordagem mais heróica e menos de terror, somos presenteados com a origem do demônio. Invocado na antiguidade por Merlin para defender a Terra da malígna bruxa Morgana Le Fey. Depois, transportado para os dias atuais ( dos anos 70 ), um Jason Blood imortal aparece em seu apartamento e várias aventuras dignas de Kirby são cuidadosamente contadas, ilustrada e coloridas a um sabor clássico delicioso. Temos as primeiras aventuras, algumas ao lado de Merlin, o retorno de Morgana, o Barão de Ferro e Meg, a Feia e muitos outros monstros e demônios criados pelo autor. Tudo isso antes de ser revelado seu parentesco com o próprio Merlin e seu pai, Belial.Etrigan em close

Poderoso, mas mortal na forma vilã

A quantidade de vocabulário que eu aprendi ao ler quadrinhos é enorme. Isso além da contextualização fizeram de mim uma pessoa que adora leituras fantásticas e poder se transportar a mundos além da simples imaginação. Sinto falta de ter isso nos quadrinhos de hoje. Na época dos berço dos quadrinhos modernos, o comum eram aventuras de piratas, guerras, arqueologias e descobertas de cidades ocultas, tesouros inimagináveis, mas durante os anos 60 e 70, partimos pra outros mundos, outras dimensões. Chegamos a visitar o céu e o inferno. A mitologia se misturou com a vida, oculta dos olhos dos cidadãos comuns, mas ao acesso de poucos. Sempre algo estava acontecendo, em algum lugar, ao mesmo tempo e o mundo era salvo de ser destruído quase todos os dias sem que as pessoas sequer soubesse por estes heróis altruístas.

Neste contexto, Kirby e alguns outros autores compartilhavam sua imaginação. Toda a sua fertilidade em páginas coloridas e o que a gente tinha era uma abertura que poucos conseguiriam passar. Apenas crianças tinham esta flexibilidade e fomos fisgados por ela. Não tem como não parar pra viajar quando o assunto é quadrinhos. No fundo, todos queríamos mesmo abandonar a forma vilã, e nos tornamos como Etrigan, trilhar aventuras, enfrentar monstros, e com poderes infernais, ser um herói como poucos poderiam ser.

Curiosamente, e é até explicado no texto de introdução do numero 1 ( deixe a preguiça de lado e leia ) que Kirby não era muito conhecedor de demônios, mas resolveu inspirar-se ( pra não dizer – copiar ), um visual que Hal Foster criou para sua tirinha “Principe Valente“. Nesta aventura, o Principe Valente precisava de um disfarce bem horroroso de demonio e matou um pato e com a pele e as patas do pato, fez uma mascara bem medonha. Kirby homenageou esta passagem de Foster em seu Etrigan.

Lendas do Universo DC é um presente aos leitores mais jovens para que revisitem o passado e vejam como era gloriosa a aurora dos quadrinhos e perceber que o que o cinema abriu pra eles hoje, é nada perante o que já existiu no começo e que hoje, engessado, resumido, mudou e se perdeu. Ler uma HQ era uma atividade que tomava um tempo delicioso. Os quadrinhos eram narrados, tinham mais conteúdo e envolviam muito mais. Hoje, uma sucessão de figuras e diálogos curtos não permitem que você realmente fique imerso. Teria o corre-corre e a pressa dos dias modernos roubado um pouco do entretenimento que poderia gerar pessoas mais criativas ? Mais ousadas e abertas ao desconhecido ? Mais resilientes e mais compreensivas de que o mundo real tem nuances em que a correria apenas permite a percepção de borrões ? Deixo a reflexão pra você.

Mundano, imortal demônio Etrigan

As aventuras apresentadas nestas duas edições trazem aventuras fechadas. São poucas que começam em um número e continuam no outro. Quadrinhos eram assim nesta época, você comprava uma edição e terminava a história nela mesma. Ficava com vontade de ler a próxima porque o que você havia acabado de ler era legal e você queria mais e não porque teria que ler a outra pra concluir uma história. Quando isso acontecia era porque a história era boa e pedia por uma narrativa mais longa. Somos apresentados a Klarion – o menino bruxo – e seu gato Kcgas. Temos o Barão Von Terrivelstein, Farley Fairfax – o fantasma dos esgotos. Os amigos Randu e Harry Matthews e a loiríssima Glenda Mark, os poucos que conhecem a verdade de Jason Blood, participam de sua luta entre abraçar o demônio e seu medo. Confesso que não tem história ruim nesta coletânea.

Se você sente falta de histórias com boa qualidade, um pouco de terror e não tem medo de ousadia. Se sente-se cansado da mesmice que acomete as atuais HQ’s de heróis, recomendo fortemente que leia Etrigan – Lendas do Universo DC : Jack Kirby.

Abraços do Quadrinheiro Véio.

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About The Author

Sou um leitor de Quadrinhos e fã de cinema desde que me entendo por gente. Minha primeira "revistinha" ganhei da minha mãe em 1983 e desde então não parei mais de ler. Portanto este é um blog de um cara que começou a ler HQs há mais de 30 anos e continua apaixonado por este universo !

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