segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Lucifer – O Diabo à Porta

Lúcifer – O Diabo à Porta

luciferSempre gosto muito de histórias baseadas em personagens religiosos, sejam Nórdicos, Xamânicos, sulamericanos, Pagãos, Gregos, Orientais, Indianos, Judeus ou qualquer outro. Acho que é sempre legal ver como surgem alguns estereótipos e como eles acabam sendo sempre baseados nos mesmos arquétipos, seja por absorção de um “deus” ou persona pela cultura seguinte, ou mesmo que acabe sendo pela percepção de uma cultura sobre um mesmo fato empírico e que acaba sendo interpretado pela capacidade cultural de sua época e convertido em ensinamento ou crença. No fim, sempre acaba tendo o mesmo fim, que é a organização sócio/cultural que acontece de forma inconsciente, mas de forma muito parecida, mudando apenas os detalhes. A figura de Lúcifer, o portador da Luz, ou buscador da Luz, depende da “tradução” que você quiser é sempre uma delícia de se ler. Ele é bem empreendedor. É o personagem que foi condenado por pensar por si mesmo. Claro que isso acaba sempre sendo interpretado como arrogância e outros adjetivos e isso acaba cabendo muito bem no Lucifer de Neil Gaiman em Sandman. E de certa forma, ele acaba sendo mais legal e mais manipulador ainda nas mãos de Mike Carey, que é um dos roteiristas de Lúcifer – O Diabo à Porta.

Lucifer-01-Interior1_thumb1Gosto de roteiros inteligentes e intrigantes, e esta Graphic Novel tem as duas. Mas olha que coisa interessante: Este encadernado reune uma minissérie ( The Sandman Presents: Lúcifer ) e as edições de 1-4 da série Lúcifer. Entretanto tem ares de uma genuína GN, e isso muito me agrada. Por quê ? Porque existe todo um cuidado em ser bem escrito e coerente. Não é pelo traço, não é pela idéia, mas pela condução da transformação que promove para o leitor. E é muito legal quando você entende isso e consegue curtir a história. Além disso, existe toda uma pesquisa sobre a história do anjo caído, e uma interpretação cabível das escrituras que o citam. O que acho muito legal sobre isso é quantidade de metáforas que são passíveis quando o texto permite. E a forma de ver as coisas varia de pessoa pra pessoa. E a visão que temos nesta HQ é a de seus autores, porém bem embasada e pesquisada, o que torna a história divertida, coerente e emocionante.  

418685-Photo7Primeiro vou te localizar. Lucifer está na Terra. Ele resolveu se aposentar e deixar o inferno. Não é mais o governante do reino da danação eterna e foi pra Los Angeles ( naturalmente, a Cidade dos Anjos ) montar um bar, onde ele mesmo toca piano. Para isso deixou suas asas para trás e agora não mais pode voar e não tem mais um monte de poderes. isso é até curioso. Embora sua maior arma seja sua mente ardilosa, sua manipulação sua capacidade de perceber os maiores desejos dos humanos. O lance dele é curtir a vida eterna e não faz a menor questão de esconder quem é de verdade. Mas não fica se exibindo também. Na primeira história, Lulu é convidado a salvar o mundo a pedido do céu. Ele recebe em troca um a carta de “pode pedir qualquer coisa que você quiser“. Fica entendido que ele é o maior dos anjos, o mais poderoso e que não apenas seria um dos poucos que poderiam resolver a questão, como também seria o que poderia agir fora das regras e de certa Lucifer Diabo a portaforma, seria dispensável. Se bem que caso ele fracassasse em vencer a “escuridão original“, não teria muito espaço pra mais nada. Ou seja, ele deveria salvar a existência guiado por uma humana, que ele conhece neste processo. Só que este resumo não dá a grandiosidade da idéia do roteiro, que passeia em vários conhecermos e crenças diferentes, misturando muitas, entre elas o xamanismo americano e coloca algumas passagens da bíblia com uma explicação de “background” bem criativa e plausível. Como eu disse, é bem legal esta liberdade de criar algo baseado nas escrituras ( e não apenas nelas ) e de certa forma tomar pra si o poder que muitas religiões tiveram a milhares de anos, de interpretar e influenciar milhões de pessoas com a visão de poucos homens com grande poder de persuasão. Isso não lembra o mesmo Lúcifer ? Fica a sugestão de reflexão pra você. Como sempre digo nos meus posts, eu não sou nenhum sábio ou mega conhecedor profundo de nada… mas eu estudo bastante sobre muita coisa, graças a curiosidade que ler HQ´s toda uma vida me proporcionou. E mais uma vez, sou muito grato por isso.

Lucifer Diabo a portaLúcifer não poupa ironia, sarcasmo, magia negra e palavrões. Seu ódio do céu é enorme, mas ele entendeu o que aconteceu e vive sereno. Fica claro também o quanto ele não liga a mínima pra vida humana e o quanto ele sente prazer com o sofrimento alheio. Mas confesso que faltou uma explicação mais plausível pra tamanha maldade. Se a gente parar pra pensar, não existe motivo para Lucifer ser mal, a não ser a inveja dos humanos ou talvez a vontade de descontar a frustração que sente por ter sido expulso de seu lugar ao lado do criador e resolveu descontar tudo nos humanos como uma forma de irritar, ou chamar a atenção do criador ao fazer sofrer a criação. Não sei. Sei que isso dá muito pano pra manga em uma saudável discussão à mesa do bar. Quem sabe um dia a gente marca algo assim, hein ? Lucifer Mornigstar é o que a gente espera de um Diabo. E o desenho de Scott Hampton, que abala. É um traço mais artístico e nem tanto um traço comum de HQ. As cores são bem “aguadas”, desbotadas, que dá um tom mais sombrio. Muito preto, muito escuro, bem no “tom” de algo sinistro. Ponto pro cara.

Lucifer Diabo a portaA segunda história é muito boa também e, particularmente pra mim, mais mística. Eu gosto muito do Tarô, acho uma forma muito legal de transmissão de conhecimentos e arquétipos sobre a base mental ( ou pra quem acreditar, espiritual ) da humanidade. Leva a reflexão e separa as diferentes nuances que, adicionadas, formam a mente de todas as pessoas. E a forma com que é colocado, como se ele tivesse sido criado pelos anjos, é muito legal. E também gosto da idéia de que estas cartas, que reúnem a energia destes arquétipos, terem mente própria. Até um dos mesmos arquétipos é a representação do próprio Lúcifer. E isso é bem curioso. Vale a pena dizer que não é falado na HQ que se trata do tarô, mas como eu conheço, percebi a semelhança. Pode ser outro sistema de cartas parecido também. Além disso, a história também lida com preconceito e com a percepção de quanto isso é algo ruim e o mais legal é que o próprio Lulu está pouco ligando pra isso. Ele se preocupa mais com a essência da emoção e não nos detalhes de como estas essências acontecem. É muito bom. O traço é de James Hodgkins, muito detalhado e bonito, mas com um “Q” meio antigo, meio aqueles desenhos orgânicos, com vida própria.

A terceira história deste encadernado se passa com uma garotinha médium. Muito inteligente, criativa e mostra o fardo que é para as pessoas que são sensíveis a estas energias. Tudo muito inteligente. Aliás esta é a palavra pra resumir tudo. Inteligente.

Por isso que eu digo pra você que é uma publicação que vale a pena. Assim como as boas histórias de Sandman, que é magistral não apenas pela diversão, mas também pela transformação. A profundidade do roteiro de Sandman é fora de questão. Mesmo que não leu sabe que é porque quem leu não compara com mais nada. Sandman de Neil Gaiman se iguala as grandes obras de mestres como Alan Moore, Frank Miller e Will Eisner. Só isso.

Lucifer Diabo a portaAcho que também vale a pena falar sobre a nova série de TV do Lucifer cujo episódio piloto “vazou” na internet recentemente. E, naturalmente, eu dei um jeito de assistir. Vou dizer apenas o seguinte: É legal, mas não é o Lúcifer do Gaiman. É um cara com muito humano, muito fanfarrão… muito forçado. Eu vou assistir a série, com certeza. Mas sem aquele compromisso e nem esperando algo grandioso. Se seguir o piloto e não melhorar bastante, não acredito numa segunda temporada. O piloto pega leve demais. Espero que isso mude. Não vou “spoilar” aqui. Assista e conclua por você. Aliás, pegue isso com regra. Não se deixe conduzir por opinião alguma, sempre tenha a sua conclusão.

Bom, acho que é isso. Espero que goste e mais ainda, espero que comente. E mais ainda, peço que compartilhe.

Abraços do Quadrinheiro Véio !

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About The Author

Sou um leitor de Quadrinhos e fã de cinema desde que me entendo por gente. Minha primeira "revistinha" ganhei da minha mãe em 1983 e desde então não parei mais de ler. Portanto este é um blog de um cara que começou a ler HQs há mais de 30 anos e continua apaixonado por este universo !

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