domingo, 22 de outubro de 2017

Reino do Amanhã

Reino do Amanhã

Olá amigos !

Reino do Amanhã2016 começando e pra abrir com chave de ouro este ano que promete ser um dos melhores anos de todos os tempos para ser fã de quadrinhos, vou contar um pouco sobre como foi ler Reino do Amanhã na época do lançamento. Por ser a obra que é, não acredito que exista muita gente que ainda não tenha lido esta preciosidade atemporal sobre um futuro apocalíptico da DC Comics, magistralmente escrita por Mark Waid e pintada ( não podemos chamar aquilo de desenhos… são pinturas… ) pelo icônico Alex Ross.

Kingdom_Come_2Nos idos da primeira metade dos anos 90, acompanhando as edições regulares das HQ’s da época, lembro-me de comprar o jornal da minha cidade, o Valeparaibano, todas as terças por ter uma coluna sobre HQ escrita pelo Fabrício Grelet. Na época pré-internet a gente não tinha onde ter noticias sobre HQ’s de maneira tão fácil como hoje, e por isso esta coluna era como me mantinha informado ( bem pouco ) sobre o mundo dos quadrinhos. Foi por onde conheci Marvels e fiquei encantado pela proposta, ao ponto de encomendar com o próprio escritor da coluna as edições importadas, pois ainda não haviam sido lançadas no Brasil e ainda iriam demorar um pouco. Quando eu vi aquela arte eu fiquei maravilhado. A história era ótima e ainda tinha um desenho que eu nunca havia visto antes. Um “Q” de realidade incrível… uma humanidade tremenda. Imediatamente me tornei fã do artista. Aliás, leia meu artigo sobre Marvels aqui mesmo no blog. Logo em seguida, soube que ele estava visitando o futuro da DC Comics, após nos mostrar o passado da Marvel sob o olhar de uma pessoa comum. Agora, seria a vez da DC ter o seu olhar de “humano normal”, mas sobre um futuro sombrio, diferente. Reino do Amanhã nos apresenta um futuro onde os heróis perdem o controle. O símbolo da ordem se perde e tudo vida caos. Aliás, sem caos, sem super-heróis. É pelo caos que a ordem se faz necessária e da ordem o caos emerge. Então, sempre haverá este equilíbrio, este giro em torno do centro, inalcançável a não ser que seja atingido o derradeiro fim, onde a estática tomará conta de tudo e nada mais restará… ou não. Adoro filosofar sobre estas coisas malucas. Pontos de vistas paralelos que a cada dia mudam dentro da mesma pessoa.

KingdomCome1-1024x733Retomando, Kingdom Come chegou as bancas do Brasil em 1997 e eu mal podia esperar pra ter em mãos, pra ler algo produzido pelo Ross e ver o que ele faria. Ele que era um campeão de referências, de easter eggs e homenagens ao meu amado universo dos quadrinhos, era o que eu mais esperava ver. A arte na época estava dominada pelos traços finos e muito bem desenhados, um pouco exagerados em suas poses ( cada quadrinho parecia uma capa de revista ) e argumentos fracos. De repente aparece nas bancas uma revista ousada, desenhada como obras renascentistas, com um roteiro tremendamente bruto, diálogos afiados e pânico desenfreado. E o mais legal, em quatro edições quinzenais. A gente tinha que comer os dedos de ansiedade entre cada edição, já que as unhas haviam sido detonadas durante a leitura. E que leitura boa. As homenagens passeiam por todas as épocas, desde o desenho animado dos Superamigos, onde muitos dos fãs de heróis da minha época tiveram o primeiro contato com os personagens. Podemos ver a Sala da Justica da animação representada na imagem do prédio da Onu e no Gulag em forma de “nave da Legião do Mal”. A base da mascara do Batman é muito parecida com a base do capacete do Darth Vader, Aquaman representado como o “Rei Arthur” da távola redonda. A era de ouro e de prata representada no restaurante “Planet Krypton”, que tem na fachada um planeta explodindo e os garçons fantasiados como os heróis em seus traços clássicos. Fora isso, gaste um tempo olhando as imagens onde estão reunidos muitos personagens… como bares, ruas… sempre tem alguma referencia e é possível até encontrar um Logo meio barrigudo ao lado de um Vril Dox decadente, um rastejante bêbado… ou até um dos personagens que eu mais amo, que é o Krypto.

Kingdom_Come_3Trabalhando de dia, fazendo faculdade de noite, tocando em banda de rock e ainda procurando manter a leitura de HQs em dia… que época mais boa para se viver… sem as distrações da internet. Eram os últimos anos em que as redes sociais se faziam nos bares, intervalos das aulas e nos cafés da empresa em que eu trabalhava. As redes sociais eram no mundo real. E poder comprar minhas revistas com meu dinheiro era uma atividade recente. Somando se a este cenário, aparece Reino do Amanhã abalando estruturas e fazendo com que as semanas ficassem mais longas durante dois meses. Ao termino de cada edição, o sentimento de pânico tomava conta. O que será que o Superman vai fazer agora que voltou ? Batman e Luthor unidos ? Capitão Marvel lobotomizado contra o Super-homem ? E agora que já terminou ? Todo mundo seguiu com a vida como ? Aliás, como vou seguir com a minha vida depois de tamanha obra ?

capas-lam-kingdom-comeEu digo uma coisa pra você: não troco minhas 4 edições por nada no mundo. Nada. ( ainda mais agora que Mr. Waid autografou a numero 1 pra mim na CCXP 2015 ). A experiência de ler uma obra em sua época de lançamento, ainda mais numa época de escassez de histórias boas como foi a segunda metade dos anos 90… indo buscar a edição na banca e começar a ler ela andando na rua, tropeçando nas guias… não tem preço. Não tem encadernado especial com extras que vá chegar aos pés de ler isso, de viver isso. Por isso que sempre afirmo aqui que hoje em dia podemos ler qualquer coisa em encadernados incríveis, bem produzidos, papel ótimo, lindas capas duras. Mas viver a emoção da estréia, de ler algo estando imerso em sua época de produção, é algo que não tem preço. E eu já havia falado isso em Watchmen, lembra ? As capas traseiras de Watchmen são o maior exemplo do que estou falando… Se você tem a minha idade sabe o que estou dizendo… aqueles ponteiros que iam aproximando a cada edição… o sangue descendo aos poucos. Tudo de bom !

Reino do Amanhã

Meu autografo de Mark Waid

Por isso que eu sempre digo que algumas obras mudam a vida da gente. Sério, sem exagero. Tem pessoas que tem a vida transformadas por novelas, por filmes… por livros… e porque não HQ’s ? HQs são uma forma de cultura, transmitem informações, conhecimento e valores. Criam interesses nas pessoas a partir de fatos que as vezes são simples citações. Lembro-me de ter meu interesse em ciências aumentado exponencialmente por causa do Quarteto Fantástico. Então, ler esta obra faz a gente querer saber mais sobre outras coisas também. E o envolvimento religioso, este fator de envolver profecias, misturar realidade com o fantástico universo de heróis ao ponto de levar você a fazer reflexões relevantes sobre a sua própria vida. Cara, a gente se sente incentivado a querer saber mais sobre o pano de fundo. Se você é um curioso, acaba se tornando um pesquisador.

ReinoDoAmanha_desA revista começa com um ensandecido e moribundo Wesley Dodds (Sandman) citando passagens da Biblia que representam suas visões. Seu pastor, reverendo ou pastor Norman McCay ( que é representado com o rosto do pai do Ross ), começa a narrar e nos localizar no “mundo” em que se passa a revista. Estas páginas são essenciais e é muito bom poder reler este começo todo após terminar de ler a série toda, pois ela basicamente conta tudo o que virá a seguir, mas de forma profética e codificada. Que genialidade do Waid. Ok… sou tiete do cara, mas poxa ? Estamos falando de Kingdom Come. Em seguida, o Espectro procura o pastor para que este seja seu juiz. Imagine que o próprio Espectro já não consegue mais julgar os fatos e precisa de um olhar humano pra isso. E este olhar foi representado em um personagem que está perdendo a sua fé não apenas em sua religião, mas na vida de modo geral. É tão profundo quanto as histórias do Sandman do Neil Gaiman. Talvez por isso se destaque tanto já que está com os super-heróis regulares. É uma dose cavalar de maturidade em meio as historias normais. Algo que se equipararia a Cavaleiro das Trevas, por exemplo. Todos os heróis que conhecemos estão afastados. Cada um em seu mundo, tentando viver neste novo mundo onde os mais jovens poderosos são irresponsáveis e se acham donos do mundo. Não valorizam a vida, não entenderam o valor que isso tem. E cabe aos “mais velhos” retornarem para educa-los. Mas aparentemente, já é tarde demais.

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Se você tirar tudo do Batman, sobra um homem que não quer mortes !

Então, quando o Caos chega em seu auge, é chamado o campeão da ordem pra colocar tudo no lugar. E é neste ponto que a história começa. Tem tanta homenagem embutida nas páginas desta minissérie que existem sites com artigos enormes só mostrando isso. Até as capas tem muitas referências simbólicas escondidas. O nível de tensão é tão grande que a revista quase solta faíscas. Para atingir o equilíbrio se faz necessário um grande embate. Uma anulação química. Forças opostas de aniquilando, apaziguando, se transformando… dando lugar a um terceiro estado. Um estado definitivo. O que está em cima é como o que está embaixo. A arte imita a vida. O ciclo se completa. Por um tempo. Existe uma edição especial que mostra como ficou o mundo após Reino do Amanhã. Você pode ler ela na integra aqui no blog.

Eu acredito que Kingdom Come seja uma leitura obrigatória. Mais ainda pra quem já tiver alguma bagagem com a DC Comics. É uma edição que dá mais peso para quem já conhece os heróis de larga data. Eu sou uma pessoa de sorte. Já conhecia os heróis a mais de 10 anos quando li a minissérie. A emoção foi tão grande na época quanto foi hoje ao relê-la para escrever pra vocês.

Eu não tenho a menor dúvida de dizer pra você: Leia Reino do Amanhã. Sim, vale a pena.

Abraços do Quadrinheiro Véio !

Eu e Mark Waid

Eu e Mark Waid

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About The Author

Sou um leitor de Quadrinhos e fã de cinema desde que me entendo por gente. Minha primeira "revistinha" ganhei da minha mãe em 1983 e desde então não parei mais de ler. Portanto este é um blog de um cara que começou a ler HQs há mais de 30 anos e continua apaixonado por este universo !

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