segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Super-Homem – Paz na Terra

Super-Homem – Paz na Terra

Super-HomemLembro me bem quando esta edição especial do Super-Homem foi lançada aqui no Brasil em 1999. Alex Ross já tinha causado rebuliço com Marvels e Kingdom Come e tudo que a gente mais queria era ter mais histórias dele. Aquele formato enorme de revista, com uma coleção de pinturas era uma grande obra pra gente adquirir. Basicamente obrigatória. Super-Homem – Paz na Terra é icônica e atemporal. Não apenas pelo excelente trabalho visual do Ross, mas principalmente pelo grande poder de reflexão que a revista tão habilmente nos conduz. Tenho até hoje todas elas, enormes, na minha estante. 

Ele não precisa comer

Basicamente, Superman no Natal ajuda uma mendiga que desmaia por causa de desnutrição. E isso leva ele a refletir sobre como ainda nos dias de hoje, com tanta produção de comida e terra pra plantar, ainda morre gente de fome no mundo. Curiosamente ele até reflete consigo mesmo sobre a sua própria natureza. Ele não precisa comer e nunca vai saber o que é fome. Mas lembrando de seu pai, de como ele era um fazendeiro, seus ensinamentos sobre alimentar as pessoas e tudo o mais, ele pensa sobre tudo que faz pra ajudar a humanidade e como ele mesmo poderia dar o exemplo ao mundo, levando e redistribuindo a comida acumulada, e muitas vezes que vai estragar, em armazéns e até em colheitas que podem se perder se ninguém colher.

Com a permissão dos lideres mundiais, ele sai fazendo esta redistribuição por todo o planeta. E cada lugar, cada situação traz um pensamento, uma percepção, uma reflexão sobre os humanos e suas diferentes culturas. E é nestes momentos que esta história se mostra tão atual, tão bem escrita e planejada. 

O Vilão

Então, a história não tem vilão. Não tem Lex Luthor, Brainiac e ou qualquer ameaça sob a forma de violência física. Tem apenas o Super-Homem travando uma guerra impossível de se vencer. Curiosamente ele já começa pensando nisso, e conclui exatamente a mesma coisa. Porém a experiência ajudou-o a entender mais o que é ser humano. Lutar contra a fome pra um kryptoniano já é algo meio esquisito. Como ele pode ajudar a erradicar algo que ele mesmo nunca soube o que é ? Por mais que sua vivencia humana desde bebê em nosso planeta possa ter ensinado a ele como funcionamos, sem a verdadeira experiência, a gente fica sempre imaginando o que é e o que não é. Aprender é sobre fazer, e não sobre ver.

A atualidade da história se deve ao fato de que a essência humana é falha no sentido social. A racionalidade ainda não sobrepujou o instinto e como a maioria de nós apenas existe, dificilmente o problema da fome será resolvido. Ainda vive-se muito a ilusão do cada um por si. Gosto de leituras como esta, porque foi por este tipo de reflexão proporcionada pelos quadrinhos que eu sempre me mantive fiel à leitura. Hoje em dia são poucos roteiros que tem este tipo de coisa. Hoje tem tanta revista, que 90% é mais uma sequencia oca, sem ensinamento. Apenas entretenimento barato, acéfalo. Não te faz pensar, não te gera reflexão. Sem pensar, o que somos ? A automação do dia a dia, que a gente mal percebe e usa a desculpa do “Todo mundo faz, então deve ser o que deve ser feito mesmo. Se eu não fizer, ou vai fazer. ” Como é que faz nesta hora ?

Porém ao reler esta revista neste relançamento do encadernado “Os Maiores Super-Heróis do Mundo” que chegou às livrarias depois de 10 anos novamente, eu me recordei e percebi o quanto ler comics é reconfortante, mágico, inteligente e capaz de alimentar nossa mente com pensamentos maduros sobre o que é viver neste planetinha azul. Te faz querer fazer mais, te faz pensar em como pode colaborar mais pra que o mundo seja realmente um lugar melhor.  Não sei como é pra maioria dos leitores, mas pra mim a inspiração vem dos heróis. Não sou do tipo que se identifica com as vitimas. Toda a minha personalidade foi pautada nos mais altos valores de diversos personagens e sim, acho isso muito legal. Aceito e agradeço !

A dupla mágica

Esta série de revistas sem vilões mas com grande poder de reflexão, desenhadas pelo genial Alex Ross foi toda roteirizada pelo Paul Dini. Acho que o super poder do Ross não é apenas a qualidade de sua arte, mas sua incrível capacidade de se associar a roteiristas inacreditáveis. Kurt Busiek em Marvels, Mark Waid em Reino do Amanhã. Sacou que o cara é esperto ? Paul Dini deve ter se emocionado muito ao escrever estes títulos todos. Eu sei que me emocionei ao ler. Não apenas pelo enredo em sim, mas pela oportunidade de poder ter acesso a algo assim. Digo o mesmo de muitas obras grandiosas como estas, como Watchmen, 300, etc… Todas obras primas da arte das HQ’s que tem se perdido. 

Super-HomemA meu ver, tudo é mantido à dinheiro. Ok, isso não é de fato um problema. É a energia de troca. Sem isso, pouco se consegue produzir. A arte que um dia era algo apenas da alma do artista foi crescendo e foi se tornando mais e mais cara. Com isso, algumas prisões se formaram. E uma das principais é justamente a do custo pra se manter uma editora tão poderosa. Fatalmente, a arte se rende ao mercado. O artista deixa de expor o que pensa, para expor o que o público pede. E, aí… todos perdem: Público, artista, humanidade. Quem será o intrépido e ousado herói que vai tentar quebrar o status quo dos quadrinhos dos anos 2020 ?

Deixo pra você responder isso aí.

Quem sabe com estes relançamentos podendo chegar novamente às mentes jovens, estas reflexões mexam com mais gente como mexeu comigo. Às vezes penso que uma forma de as editoras mudarem o mundo é justamente tornando esta arte mais acessível a mais gente. Mas a gente sabe que com os custos de tudo atualmente, isso é complicado. Não creio na má vontade. Apenas não é algo tão simples assim.

Se você não encontrar em sebos, vale muito a pena pegar a edição encadernada com todos os volumes. Tem na loja.panini.com.br.

Comente aí o que você achou da história. Já leu ? Me conta !

Abraços do Quadrinheiro Véio !

About The Author

Sou um leitor de Quadrinhos e fã de cinema desde que me entendo por gente. Minha primeira “revistinha” ganhei da minha mãe em 1983 e desde então não parei mais de ler.
Portanto este é um blog de um cara que começou a ler HQs há mais de 30 anos e continua apaixonado por este universo !

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