Super-Homem – Paz na Terra

Super-Homem – Paz na Terra

Super-HomemLembro me bem quando esta edição especial do Super-Homem foi lançada aqui no Brasil em 1999. Alex Ross já tinha causado rebuliço com Marvels e Kingdom Come e tudo que a gente mais queria era ter mais histórias dele. Aquele formato enorme de revista, com uma coleção de pinturas era uma grande obra pra gente adquirir. Basicamente obrigatória. Super-Homem – Paz na Terra é icônica e atemporal. Não apenas pelo excelente trabalho visual do Ross, mas principalmente pelo grande poder de reflexão que a revista tão habilmente nos conduz. Tenho até hoje todas elas, enormes, na minha estante. 

Ele não precisa comer

Basicamente, Superman no Natal ajuda uma mendiga que desmaia por causa de desnutrição. E isso leva ele a refletir sobre como ainda nos dias de hoje, com tanta produção de comida e terra pra plantar, ainda morre gente de fome no mundo. Curiosamente ele até reflete consigo mesmo sobre a sua própria natureza. Ele não precisa comer e nunca vai saber o que é fome. Mas lembrando de seu pai, de como ele era um fazendeiro, seus ensinamentos sobre alimentar as pessoas e tudo o mais, ele pensa sobre tudo que faz pra ajudar a humanidade e como ele mesmo poderia dar o exemplo ao mundo, levando e redistribuindo a comida acumulada, e muitas vezes que vai estragar, em armazéns e até em colheitas que podem se perder se ninguém colher.

Com a permissão dos lideres mundiais, ele sai fazendo esta redistribuição por todo o planeta. E cada lugar, cada situação traz um pensamento, uma percepção, uma reflexão sobre os humanos e suas diferentes culturas. E é nestes momentos que esta história se mostra tão atual, tão bem escrita e planejada. 

O Vilão

Então, a história não tem vilão. Não tem Lex Luthor, Brainiac e ou qualquer ameaça sob a forma de violência física. Tem apenas o Super-Homem travando uma guerra impossível de se vencer. Curiosamente ele já começa pensando nisso, e conclui exatamente a mesma coisa. Porém a experiência ajudou-o a entender mais o que é ser humano. Lutar contra a fome pra um kryptoniano já é algo meio esquisito. Como ele pode ajudar a erradicar algo que ele mesmo nunca soube o que é ? Por mais que sua vivencia humana desde bebê em nosso planeta possa ter ensinado a ele como funcionamos, sem a verdadeira experiência, a gente fica sempre imaginando o que é e o que não é. Aprender é sobre fazer, e não sobre ver.

A atualidade da história se deve ao fato de que a essência humana é falha no sentido social. A racionalidade ainda não sobrepujou o instinto e como a maioria de nós apenas existe, dificilmente o problema da fome será resolvido. Ainda vive-se muito a ilusão do cada um por si. Gosto de leituras como esta, porque foi por este tipo de reflexão proporcionada pelos quadrinhos que eu sempre me mantive fiel à leitura. Hoje em dia são poucos roteiros que tem este tipo de coisa. Hoje tem tanta revista, que 90% é mais uma sequencia oca, sem ensinamento. Apenas entretenimento barato, acéfalo. Não te faz pensar, não te gera reflexão. Sem pensar, o que somos ? A automação do dia a dia, que a gente mal percebe e usa a desculpa do “Todo mundo faz, então deve ser o que deve ser feito mesmo. Se eu não fizer, ou vai fazer. ” Como é que faz nesta hora ?

Porém ao reler esta revista neste relançamento do encadernado “Os Maiores Super-Heróis do Mundo” que chegou às livrarias depois de 10 anos novamente, eu me recordei e percebi o quanto ler comics é reconfortante, mágico, inteligente e capaz de alimentar nossa mente com pensamentos maduros sobre o que é viver neste planetinha azul. Te faz querer fazer mais, te faz pensar em como pode colaborar mais pra que o mundo seja realmente um lugar melhor.  Não sei como é pra maioria dos leitores, mas pra mim a inspiração vem dos heróis. Não sou do tipo que se identifica com as vitimas. Toda a minha personalidade foi pautada nos mais altos valores de diversos personagens e sim, acho isso muito legal. Aceito e agradeço !

A dupla mágica

Esta série de revistas sem vilões mas com grande poder de reflexão, desenhadas pelo genial Alex Ross foi toda roteirizada pelo Paul Dini. Acho que o super poder do Ross não é apenas a qualidade de sua arte, mas sua incrível capacidade de se associar a roteiristas inacreditáveis. Kurt Busiek em Marvels, Mark Waid em Reino do Amanhã. Sacou que o cara é esperto ? Paul Dini deve ter se emocionado muito ao escrever estes títulos todos. Eu sei que me emocionei ao ler. Não apenas pelo enredo em sim, mas pela oportunidade de poder ter acesso a algo assim. Digo o mesmo de muitas obras grandiosas como estas, como Watchmen, 300, etc… Todas obras primas da arte das HQ’s que tem se perdido. 

Super-HomemA meu ver, tudo é mantido à dinheiro. Ok, isso não é de fato um problema. É a energia de troca. Sem isso, pouco se consegue produzir. A arte que um dia era algo apenas da alma do artista foi crescendo e foi se tornando mais e mais cara. Com isso, algumas prisões se formaram. E uma das principais é justamente a do custo pra se manter uma editora tão poderosa. Fatalmente, a arte se rende ao mercado. O artista deixa de expor o que pensa, para expor o que o público pede. E, aí… todos perdem: Público, artista, humanidade. Quem será o intrépido e ousado herói que vai tentar quebrar o status quo dos quadrinhos dos anos 2020 ?

Deixo pra você responder isso aí.

Quem sabe com estes relançamentos podendo chegar novamente às mentes jovens, estas reflexões mexam com mais gente como mexeu comigo. Às vezes penso que uma forma de as editoras mudarem o mundo é justamente tornando esta arte mais acessível a mais gente. Mas a gente sabe que com os custos de tudo atualmente, isso é complicado. Não creio na má vontade. Apenas não é algo tão simples assim.

Se você não encontrar em sebos, vale muito a pena pegar a edição encadernada com todos os volumes. Tem na loja.panini.com.br.

Comente aí o que você achou da história. Já leu ? Me conta !

Abraços do Quadrinheiro Véio !

Após o Reino do Amanhã

Após o Reino do Amanhã

Oi Quadrinheiro !

Sei que estou em falta, pois ainda não fiz um post que deveria, falando sobre o Reino do Amanhã e como foi ler esta obra prima dos quadrinhos na época de seu lançamento. Mas eu resolvi fazer uma postagem apenas para colocar algumas imagens que saíram em 2009, em uma revista da Sociedade da Justiça, que mostra o que houve com o Super-homem e os outros heróis da Terra 22, após a bomba explodir no final de Reino do Amanhã.

A revista mostra um Super-homem ou Superman, se você preferir, atuando em outra terra. Mas é o mesmo Super-homem do Reino do Amanhã, que no meio da explosão da bomba foi lançado para um universo paralelo. Entretanto ele retorna pra casa no exato momento que saiu e é aquele momento que ele acorda logo após a explosão, em meio aos ossos dos heróis que morreram e resolve ir detonar com os sobreviventes.
Reino do AmanhãCom já sabemos, ele fica muito P… da vida e parte pra cima da galerinha na ONU.

Reino do Amanhã

Reino do AmanhãE o reverendo ( que todo mundo já sabe que foi baseado no pai do Alex Ross ) chega e dá uns toques no “caboclinho” azulão, num dos melhores diálogos dos Quadrinhos:

Reino do Amanhã

Reino do Amanhã Reino do Amanhã

Quem já leu Reino do Amanhã ( Existe alguém que não leu ? Sério ?? ) já conhece até aqui, ó:

Reino do AmanhãE é aqui que entra a parte mais legal… o que aconteceu depois. Vou tentar analisar as imagens junto com vocês, mas seria legal também vocês deixarem a percepção de vocês nos comentários.

Mas… o que que aconteceu depois ?

Veja esta, após 1o anos:

Reino do Amanhã 10 anos depois da bomba.
Reino do Amanhã 10 anos depois da bomba.

Aparentemente a galerinha passou a não ver mais TV e foram todos procriar. Creio que temos na imagem filhos do Super-Homem com a Mulher Maravilha e aparentemente, o Bruce, ou é padrinho ou também apareceu lá com o dele. Vivem isolados nas montanhas, com o Krypto, o Raiado ( super gato ) e o cachorro preto perto do Bruce deve ser algum descendente do Ace. Acho que mais ao fundo tem o Shelby, um dos primeiros cães do Clark ( provavelmente uma homenagem a ele, não sei… ).

Depois de 20 anos, o inevitável acontece:

Reino do Amanhã 20 anos depois da bomba.
Reino do Amanhã 20 anos depois da bomba.

Pelo jeito é o enterro do Bruce. Especialmente por ser visível o símbolo do morcego na alça do caixão. Espantosamente ele viveu mais do que qualquer um poderia prever para um cara que levava a vida que ele levou. Tem uma porrada de heróis e descendentes. Eu sempre imaginei que um enterro de um cara como o Batman teria apenas a família morcego e o Alfred. Sim, pra mim, o Bruce morreria cedo. Agora, considerando o Batman dos anos 70, amigo de todo mundo, aí sim eu pensaria num enterro lotado como este. De cara, eu consigo ver o Oliver e a Dinah, Clark e Diana com sua filha, acho que a Selina de véu preto e mais um monte de outros… Uma homenagem e tanto. Tem um monte de homenagens escondidas neste tumulto, como um Lanterna Verde que não reconheço usando o “cabelinho” do Super-homem clássico, o Homem-elastico e o Homem-borracha, Flash, Dick sentado.. acho que deve ser o Tim também. O Espectro na forma do Jim Corrigan, Desafiador, Sr. Destino.. e os outros deixo pra você me contar nos comentários.

Só que a vida continua… ao menos para os imortais, e 100 anos depois:

Reino do Amanhã 100 anos depois da bomba.
Reino do Amanhã 100 anos depois da bomba.

Pelo jeito a humanidade resolveu ir embora do planeta, ou mesmo colonizar outros locais. O Super-Homem velho ainda com a Diana do seu lado, observa e se despede do filho ( acho… ) que acompanha a nova jornada dos humanos. Interessante o símbolo que o Clark Kent usa no peito. Alguém conhece ?

E 200 anos depois:

Reino do Amanhã 200 anos depois da bomba.
Reino do Amanhã 200 anos depois da bomba.

Lá se vai o planeta em uma enchente global. Deve ser por isso que os humanos resolveram debandar. Só ficaram os poderosos, aparentemente pesarosos, saudosos… Um clima enorme de nostalgia.

Reino do Amanhã 500 anos depois da bomba.
Reino do Amanhã 500 anos depois da bomba.

A terra se recupera após 300 anos da enchente e temos o super jardineiro ajudando a reconstrução do planeta. era que legal a posição do herói, como uma referencia a capa da Superman #1. Acho mito bacana a forma como o Ross homenageia as HQs. E começamos a perceber que se trata mesmo de uma história do Super-homem. Outra coisa pra se observar é a ausência da Diana. Teria ela ido embora ou morreu ?

Reino do Amanhã 1000 anos depois da bomba.
Reino do Amanhã 1000 anos depois da bomba.

E finalmente, 1000 anos depois, um anónimo Super-idoso, ainda como um simples Clark Kent observa em meio a multidão a si mesmo, quando garoto e vindo ao futuro fazendo parte da Legião dos Super-herois, um grupo que ele próprio foi a grande inspiração. A esta altura é de se imaginar que o Clark seja um grande detentor da historia humana, entendendo tudo e sendo muito, muito sábio. E esta sabedoria o faz procurar ser o mais anônimo possível. As pessoas ao lado do Clark parecem representar diversas nações raças e religiões, mostrando que a humanidade evolui para uma raça única e não separada por fronteiras e ideologias. Resta saber quem são os rostos que inspiraram o artista.

Sou apaixonado por este tipo de historia. Ainda mais quando se dá este nível de respeito. Adorei a edição, emocionei muito. Quando a gente vai tendo um pouco mais de idade e já é leitor de HQ a mais de 30 anos, é compreensível e possível entender o sentimento do Super-homem após estes mais de 1.000 anos vivinho da silva !

Aliás, cá entre nós, pros mais velhos que leem o blog. Este Super-homem velho não lembra bastante o Barbosa da TV Pirata ? ( hahahahahahah )

Você sabe algo mais sobre esta homenagem ? Por favor, compartilhe conosco nos comentários!

Abraços do Quadrinheiro Véio !

Capa da revista Sociedade da Justiça da América, onde esta história foi publicada:

Capa de JSA 22 de Fev2009
Capa de JSA 22 de Fev2009

Marvels

Este é talvez um dos melhores trabalhos já escritos e desenhados da Marvel. 

As histórias foram escritas por Kurt Busiek, ilustradas por Alex Ross e editada por Marcus McLaurin. Uma mini série em 4 edições, lançado em 1994. Lembro-me que eu queria tanto esta história que eu encomendei de um rapaz de minha cidade que conseguia trazer de fora do país e depois, de um ano é que foi lançado no Brasil. Um detalhe bastante interessante é a capa, que na edição americana tinha esta borda preta impressa numa capa de plastico transparente e a pintura estava integral. Na edição brasileira, como sempre, isso se perdeu.

Uma das coisas mais legais e inusitadas desta série é a história da Marvel, colocando todos os heróis, as origens de seus principais personagens sob o ponto de vista das pessoas comuns, mais precisamente um repórter, um fotógrafo chamado Phil Sheldon.

Ao longo de 4 edições, um jovem fotógrafo começa sua carreira no Clarim Diário, tendo como colega de trabalho um também jovem J. Jonah Jameson que almeja se tornar o editor. Então, surgem os primeiros heróis, o primeiro Tocha Humana e Namor, o príncipe submarino. Durante uma das batalhas ele é atingido por um pedaço de pedra que se solta de um prédio e perde o olho esquerdo. Me pergunto se isso não é um simbolismo pra uma “Visão parcial” que ele dá sobre os eventos no universo Marvel. Confesso que é muito emocionante. Ao ver como as pessoas normais reagiam os novos seres, ao surgimento de pessoas com super-poderes, o nascimento do Capitão América, como isso chegou aos jornais e como era a reação das pessoas n dia a dia. As crianças se inspirando, os adultos temendo e mais de perto ainda, como era o dia a dia da família do Phil. Nos tornamos íntimos de uma família classe média e dos pensamentos de um fotógrafo que está no dia a dia. Ao longo de toda a história, Ross coloca referências aos mais diversos personagens e também homenagens aos artistas e pessoas ligadas a Marvel. É como revisitar uma era mais simples, porém sob uma ótica mais humana e simples. Nos faz sentir como transeuntes.

Na segunda edição, um pouco mais velho, o Phil se vê de frente com a onda mutante. O medo, o preconceito, todo estampado em todo lugar nas ruas, as grandes ameaças e ainda tendo que lidar com a histeria das ruas durante o ataque dos sentinelas. No meio disso, uma mutante criança aparece na casa da família Sheldon, gerando apego. Muitos pensamentos que são compartilhados nos levam a pensar muito sobre o que o preconceito causa na nossa sociedade. Simplesmente lindo ! 

A chegada do Galactus e seu arauto, o Surfista Prateado marcam a terceira parte desta série, onde todo mundo fica sem entender nada nas ruas. Até o casamento do Senhor Fantástico e da Garota Invisível ( sim, é garota invisível, o nome mulher invisível viria apenas no final dos anos 80, explico em outro post qualquer dia ) aparecem na história. E um Phil mais velho acompanha tudo.

Na última parte o velho Phil acompanha Gwen Stacy e toda a sua revolta com relação as “Maravilhas” ( por isso o nome da série, Marvels ) começa a mudar. Ele percebe pela inocência dela como ele estava inserido em tudo aquilo e como não conseguia mais ter o olhar de fora. É muito lindo ver como Gwen ficava maravilhada ao ver as máquinas atlantes invadindo a cidade. Ao mesmo tempo, lançava seu livro auto biográfico de fotografias da carreira,com o nome de Marvels. Vê-lo lamentar a morte da Gwen e toda a percepção dele sobre os acontecimentos foi muito, muito emocionante, quando finalmente fecha com chave de ouro com um jovem Danny Ketch distribuindo jornais de bicicleta.
A série também foi vencedora de vários prêmios em 1994, que alçaram a carreira do Alex Ross. Após Marvels, Ross produziu Reino do Amanhã, para a DC Comics, que em breve ganhará meus comentários aqui no blog.

  • Ganhou “Melhor Série Finita” Eisner Award.
  • Ganhou “Melhor Pintura” Eisner Award, para Alex Ross
  • Ganhou “Melhor Design de Publicação” Eisner Award, para a Comicraft
  • Concorreu a “Melhor Artista de Capa” Eisner Award, para Alex Ross
  • Concorreu a “Melhor Lançamento” (Best Single Issue), para a Marvels #2 “Monsters”
Esta mini-série está sendo relançada na coleção da editora Salvat. Uma coleção que acho que vale a pena, pela qualidade e pelas histórias muito bem escolhidas. Tenho intenção de fazer a coleção e também de ir comentando sobre ela aqui no blog.
 
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Abraços do Quadrinheiro Véio !