segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Watchmen

Falar sobre Watchmen não é tarefa facil pra mim. Watchmen é simplesmente uma das principais publicWatchmenações dos anos 80, e é este o tom que darei neste post. Não vou ficar falando da obra hoje, do filme, e etc… mas do que foi ler Watchmen naquela época, durante a guerra fria. Durante um período de medo, quando ninguém sabia como e quando um doido poderia apertar um botão vermelho e uma guerra nuclear começar e destruir o mundo. E é neste clima que Alan Moore foi genial e escreveu sua obra prima, pra mim a mais definitiva.
 
WWatchmenatchmen fala sobre medo, mais diretamente sobre insegurança, sobre a paranoia que imperava sobre bomba nuclear. Não é sobre heróis, mas sobre pessoas que querem fazer a diferença, que querem salvar o mundo. Sério, gente. Nos anos 80 tudo que a gente mais via na TV era a Guerra Fria. Foi uma época de revoluções políticas no mundo todo, e a arte correspondia a isso. A arte ainda não era contaminada pelo marketing. Claro que ela queria vender, mas ela queria vender como arte e não como consumo. Havia uma preocupação em fazer estórias boas que vendessem e não estórias que vendessem muito mas não acrescentassem nada na vida das pessoas, como ocorre hoje. A arte anda tão perdida nos dias de hoje, que tudo que faz sucesso, seja HQ, cinema ou TV, nasceu antes de 1990. Podem reparar.
 
Tive mesmo a sorte de ter vivido e lido estes vigilantes na época em que foi feito. Por isso que Alan Moore foi contra esta série “Before Watchmen”. Só entende que viveu aquilo, é uma arte vivida pra ser sentida e não apenas uma HQ a mais na banca pra nostalgicos comprar e se decepcionarem. Ou pros novos leitores, sem identidade, ficarem lendo algo feito pro dinheiro deles e não pra eles. Onde estão as estórias dos anos 2000 ? O que fala da realidade de hoje ? Não tem… o povo de hoje é mais alienado, prefere ser iludido, e deixar pros que pensam dominar o mundo atraves do consumo e do dinheiro. Paciência. Meu blog, minhas palavras, minha opinião. Mas nada disso é uma verdade absoluta, é só o que eu vejo. E na minha limitação humana posso e espero estar enganado. Discorde a vontade, mas pense sobre isso tudo que estou compartilhando com você neste momento.
Bom, dito isso, Watchmen é algo que deve ser lido e relido muitas vezes e em
várias fases da sua vida. O medo e a constante sensação de “fim de mundo” que ele projeta é muito bem feita. E isso é assim porque traduz pra HQ o sentimento dos americanos na época. Quando você vê um Dr. Manhattan surgindo, justamente como um “filho do átomo”, a pura e simples personificação da insegurança mundial. A transcrição de uma consciência tão mortal e superior que mostra como somos todos pequeninos, e simbolizado pela simplicidade do átomo mais simples que é conhecido, o hidrogênio. Ele resume tudo, o quanto a existência era efemera, ao menos era como nos sentíamos. Então, temos o Comediante, o linha dura realista, pé no chão, desesperado. O Rorschach que brilhantemente refletia o psicológico, o inconsciente coletivo na individualidade humana, fruto de toda a mudança e expectativa de morte da Guerra Fria. O genial Ozymandias simbolizando o conhecimento humano, a base de todo conhecimento egípcio que é a origem de 90% de todo conhecimento espiritual que vivemos hoje e o Coruja, o humano comum, com a humana comum, a Silk Spectre. A trama toda se resume em unir a humanidade, em fazer todo mundo entender que por mais que tudo pareça separado, aos olhos do cosmos, somos todos uma só coisa. E infelizmente é preciso um grande cataclismo pra todo mundo perceber isso, e é isso que o Ozymandias, o homem mais inteligente do mundo, percebe. E quando o “deus” Dr. Manhattan entende isso, ele mesmo aprova. Aliás, preste muita atenção na profundidade dos diálogos, todos os diálogos dizem mais do que estão dizendo.
Outra passagem muito fodastica é justamente o diálogo que o John tem com
a Laurie em Marte. A forma como ele percebe a magnificência da vida é muito linda. Um ser que pode ver tudo no universo físico percebendo que, mesmo ele, é apenas uma produção material, e que sempre haverá algo maior, algo que pra uma pessoa que dominou tudo no plano material, agora precisa, ele mesmo, entender o que é a vida e por isso opta por sair pra “criar”. Olha que majestoso ? Olha a espiritualidade disso. Moore consegue isso em tudo que ele escreve. Desde Monstro do Pantano à 300. O simbolismo de um simples pedaço de vidro desmoronar uma estrutura inteira… representando a fragilidade do pensamento.
 
E o que dizer de Dave Gibbons ? Sério gente… o traço e as expressões dele nesta série são tão bem desenhadas, que a gente gela a espinha. Watchmen dá medo, traz reflexão… e a quantidade de simbologia presente é tão grande, que leva uma vida pra encontrar e refletir sobre todas elas. A coloração é toda fria, o tempo todo John Higgins deixou ela plana e sóbria, falando por si só. Sério, ler Watchmen e não se emocionar, não ficar pensativo, não repensar sua vida, suas escolhas e seu papel no mundo, é perder tempo. Não faça isso com você. Não a leia por ler, vá ler qualquer porcaria dos anos 2000, mas só leia Watchmen se estiver disposto a entender que HQ pode ser arte.
Se você ainda não conhece ou leu, recomendo Watchmen… aliás, não, não recomendo não.
Creio que algumas HQs tem um conceito artístico tão ligado ao ambiente histórico, que pra entender ela na sua essência e profundidade, seria preciso ter vivido a época. O filme é muito bom, genial, mas não conseguiu transcrever isso, virou entretenimento. Aliás, como tudo que é entretenimento hoje em dia, descartável e consumível.
Era isso o que o meu xará Alan Moore queria dizer ao desaprovar a produção. Não tem nada a ver trazer Watchmen pro hoje, porque muita gente não pode entender a mensagem dele. E como artista, ele não quer só vender, ele quer ser compreendido. Ele quer que as pessoas entendam a mensagem e não apenas comprem a obra dele. Acho que o mundo precisa se tornar mais interessante de novo, ter pessoas originais fazendo suas idéias e não pensando “o que eu posso fazer que o outro possa querer”. 
Bom, falei demais pro meu tamanho. Em alguns assuntos, ainda sou um “Velho Ranzinza“.
 
Abraços do Quadrinheiro Véio.
 

 

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